quinta-feira, 6 de maio de 2010

Infância - Capítulo 2 - Diferente III

Ele entrou, tropeçando em seus pés e se atirou no sofá, ocupando todo o espaço.

- Sinto muito, eu... Não queria que fosse assim. Digamos que minha saúde não anda tão boa quanto era - apesar de seus olhos continuarem sérios, ele deu uma gargalhada, alta, irônica. - Desculpa, eu sei, não é nada engraçado - ele disse, mas riu novamente, de uma forma estranha, quase maníaca.

- Bom... Ahm... Ook. Quer alguma coisa? Posso lhe ajudar? Algo para beber ou talvez alguma comida? Pode ser pressão baixa, nesse caso sal ajuda. - Eu continuava tentando ser uma boa anfitriã, apesar da situação ficar mais estranha a cada minuto.

- Não se preocupe, o que eu preciso você não vai querer me dar...

- Try me. Fale, o que é? - ele claramente queria aguçar minha curiosidade. E funcionou.

- Bom. Se você insiste... Venha mais perto. - ele se endireitou no sofá e fez sinal com a mão, me olhando diretamente nos olhos. -Não quer que um homem doente tenha que falar gritando, né? - seus olhos pareciam se divertir com a situação, apesar de estar sério, eu tive a nítida impressão de que ele estava reprimindo um sorriso.

Me aproximei, a curiosidade era muito maior que a prudência, minha mente gritava, esperneava, me avisando "Não, não vá, é perigoso, você não o conhece", mas eu decidi: eu precisava saber.

Me aproximei dele, cuidadosamente, ele fez sinal com as mãos, para que chegasse mais perto. Quando notei, estava quase em seu colo, virada de frente para ele, com meu rosto perto do dele, meu ouvido perto de sua boca.

- Você é um delicioso desafio Hannah - ele sussurrou, quase encostando os lábios em minha orelha - Difícil, complicada, tão incomum...
Ele foi baixando os lábios e beijou minha orelha, descendo, vagarosamente, pelo meu rosto. Fechei os olhos, a sensação era muito boa, era como se apenas houvesse eu e ele no mundo, como se estivesse hipnotizada. Ele continuou descendo, beijando meu pescoço, eu sentia o calor do seu hálito, através de seus lábios entreabertos e pensava "por que mesmo eu hesitei?". Foi então que eu senti. Uma dor lancinante, terrível, que parecia atravessar meu corpo, parecia que eu tinha sido perfurada por uma lâmina, mas eu estava imóvel, não conseguia me mexer e notei que o ponto do qual se irradiava a dor era meu pescoço - mais especificamente, os lábios de Jason.
Eu queria gritar, mas não conseguia, eu queria chorar, mas as lágrimas não saíam. Quando, finalmente, ele me soltou, pulei para longe, senti uma tontura horrível, eu estava fraca, algo estava errado! Levei minha mão ao pescoço, meu corpo inteiro ainda latejando de dor e senti algo molhado, quente. Quando olhei para minha mão, notei que eu estava sangrando e Jason, ah Jason, estava em toda sua glória, com uma expressão de um homem que faz a primeira refeição depois de dias sem comer, com os lábios manchados de vermelho, suas presas brancas contrastando com o rubor da sua face.
Foi então que uma palavra vagou na minha mente: "Vampiro" e eu gritei. Gritei e gritei, mas o som não aprecia minha voz.

Foi então que acordei. Gritando, é claro. Imediatamente levei minha mão ao pescoço, que estava intacto. O telefone tocava - esse era o som do meu grito, no sonho.

- Sonho? Não, pesadelo. Pesadelo, é isso o que foi, apenas um sonho ruim. - eu disse para mim mesma, tentando acalmar meu coração que parecia querer saltar do meu corpo.

Levantei e atendi o telefone:

 - Ah, oi mãe. É, eu estava dormindo... Não, imagina! - nesse momento eu ouço um barulho e imadiatamente penso "A janela dos fundos!" - Já te ligo!

Desliguei o telefone e saí correndo, quando cheguei perto dos fundos, vi, claramente, Jason na janela. Meu coração disparou novamente, comecei a suar frio, ele estava com o rosto igual ao meu sonho, os lábios vermelhos, as presas brancas.
Corri para a porta, a adrenalina correndo em meu sangue, abri e saí de casa, procurando por Jason. Ele não estava ali, não estava em lugar nenhum! Eu olhei em volta, procurei entre as árvores, procurei no quintal: ele tinha sumido... Ou será que nunca esteve ali? Eu estaria louca ou ainda sonhando?
Me convenci de que era apenas um galho na janela e que imaginei seu rosto ali, fiquei impressionada por aquele pesadelo, tão vívido e ao mesmo tempo tão surreal.
Fui me arrastando para a cozinha, tomei um leite morno e me joguei na cama, tentando, desta vez, dormir um sono completamente sem sonhos.

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